OU ISTO OU AQUILO OU A PRIMEIRA VEZ QUE ROUBEI

 

Outro dia mudei de casa. E, abrindo as caixas da mudança, entre o Tungo-Tungo e um livro de memórias do Miele, encontrei uma joia amarela: Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles, a edição multicor e abismal de 1987. Milagrosamente preservada e quase intacta — salvo o cheiro de bolor e um leve amassado na contracapa. Muito diferente da despedaçada edição que deixei desintegrar em Fortaleza, há mais de vinte e cinco anos.

O livro foi um presente da minha mãe e tinha uma dedicatória escrita com letra folgada e caneta Bic. A despeito da Barbie esportista, que em vão chamava meu nome com sua raquete em punho, eu mergulhava no chão frio da sala com o livro de proporções agigantadas — especialmente para uma menininha magra de sete ou oito anos — e saltitava em cambalhotas vernaculares, sucumbia ao hipnotismo dos traços loucos, dos desenhos interativos e misteriosos, repetia os ecos como espelhos e morcegos, dançava com uma música que se formava estranha na minha cabeça.

É claro que eu preferia Barbies aos livros — acho que ainda hoje prefiro—, mas esse livro em especial me encantou. Eu lia e relia, e lia para as minhas irmãs, que também o liam, e, penso que, por causa dele, iniciei breve carreira de compositora e cantora de chuveiro. Inventava umas canções estranhas e dissonantes para imitar os poemas estranhos e nem tão dissonantes quanto os que lia no livro.

O que dizer do poema “Cantiga para adormecer Lulu”, cujo um dos personagens, o anjinho de São Paulo, criava uma lombriga que tinha “olhos de rubi”, um “focinho bicudo” e uma “dentuça muito ruim”? No fim do poema, quando a lombriga “salta fora”, açoitada por um caçador, a gente ainda descobre que o oblongo verme toca bandolim. Ou como passar incólume da avalanche silvante de esses em “Procissão de pelúcia”? (A saber, um difícil desafio ao meu já incipiente ceceio.)

Mas nada se equiparava ao carinho que eu cultivava pelo poema do eco. Vale a pena colá-lo aqui.

O eco

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: “Onde? Onde?”
O menino também lhe pede:
“Eco, vem passear comigo!”
Mas não sabe se o eco é amigo ou inimigo.
Pois só lhe ouve dizer:
“Migo!”

Tudo isso impresso em meio a dunas rosas, e, numa delas, no topo, um menininho de costas e blusa vermelha, cabelos ao vento.

Eu lia e relia à exaustão. Era fascinante formar um filminho desse poema na minha cabeça e entender o jogo de palavras, o reaproveitamento do som das últimas sílabas e me sentir muito inteligente por isso. Acho que foi a primeira vez que eu percebi a força das palavras — sem, claro, precisar recorrer a essa fraca definição: “força das palavras”.

Não sei se foi antes ou depois de Ou isto ou aquilo que comecei a escrever. Mas, estou certa, foi a primeira vez que roubei.

Um dia, li, numa espécie de sarau familiar, um poema que assinava como meu — “A flor amarela”, página 56. Lembro da boa impressão que causei estampada nos olhos do meu pai. Assim como lembro também do olhar desconfiado da minha irmã que, vigilante, já suspeitava da gatunagem.

A flor amarela

Olha
a janela
da bela
Arabela.
Que flor
é aquela
que Arabela
molha?
É uma flor amarela.

(Hoje pensando bem, acho que escolhi esse poema por julgá-lo mais bobinho e, por sua vez, insuspeito.)

Pobre de mim que logo fui desmascarada em sala pública. Minha irmã com o Ou isto ou aquilo em riste, provou por A mais B que eu não passava de uma larápia de poemas. Deitei meus olhos no chão e lá fiquei, corcundinha de vergonha, esperando o chicote moral. Um vento passou liso por nós. Depois, um susto; a reação do meu pai que prontamente objetou:

— E daí? O poema é de quem lê! Como o sol é de quem vê.

Pronto. Estava feito. Agora eu podia afanar palavras livremente, e, até, quem sabe, depois de enjoar das palavras alheias, desenhar as minhas com letra folgada e caneta Bic.

* Natércia Pontes é autora de Copacabana Dreams.

:: Postado por Ray Silveira às 16h58
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:: Postado por Ray Silveira às 12h20
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Maria José Silveira

O texto abaixo é um trecho do seu romance mais
recente, "Com esse ódio e esse amor", publicado pela Global (2010), com
duas histórias entrelaçadas, a de uma jovem engenheira brasileira que
vai construir uma ponte na Colômbia, e a da rebelião Tupac Amaru, no
Peru, que abarcou todo a região dos Andes e um pouco mais.


No carro da empresa, Lela sai de Bogotá.

O ar tem cheiro de pinhos, eucaliptos, poeira e monóxido de carbono. Cheira também a suor, embora seja tão cedo.

Ela se sente absolutamente bem. A paisagem, uma atração que observa passar.

O trajeto é tranquilo, e Lela vai sentada ao lado de Sartori, o motorista. Moreno, troncudo, cabelo liso e o tique engraçado de chupar os lábios quando ri, contando casos de suas viagens.

Lela acha graça.

Ceprillo, atrás, arzinho meio obsceno que lhe dá o bigodinho bem aparado, antiquado e fino, viaja calado. Os dentes levemente levantados na frente, sob o nariz grande, fino e reto, lembram vagamente uma ratazana. Não parece nada satisfeito, ou tem mesmo essa cara natural de desajustamento, cheia de arestas, Lela não tem certeza.

Sartori pergunta se pode ligar o rádio. Lela diz, Claro, e vira-se para Ceprillo, que dá de ombros. O carro se enche com o som do “vallenato”, música do interior colombiano que ela não conhecia. Lembra um pouco a música mexicana ou a sertaneja, e ela mal começa a apreciá-la quando Ceprillo pede para Sartori mudar de estação ou desligar aquela cafonice.

Sartori, vexado, olha para Lela, que não sabe o que dizer. Ele desliga o rádio, e fica em silêncio. Durante uns bons minutos, só fala quando ela lhe pergunta alguma coisa. Não muito depois, decide esquecer o ar ofendido, e volta a contar seus casos. Mas não volta a ligar o rádio.

No começo da tarde, chegam ao local da ponte, à margem do Rio Upía, entre os departamentos de Casanares e do Meta. O Eng. Boucinhas, com um grupo de trabalhadores, está esperando por eles.

Lela desce e contempla o vão de 85 metros que a ponte cobre com seu perfil esguio, leve e ligeiramente curvo e branco, salto de gazela sobre o rio.

O mato ao redor é ralo, e a cidade mais próxima está a cerca de 40 quilômetros. Os ventos não são fortes e a bacia hidrográfica não é sujeita a grandes inundações nem intempéries. Afortunadamente, não houve necessidade de grandes desapropriações, o que sempre complica qualquer processo. A estrada é vicinal, mas caminhões passarão por ela. Talvez um ou outro animal atravessará para a outra margem mesmo sem saber que está atravessando. Não é uma ponte inovadora, nem poderia ser. Inovação não pode ser um objetivo em si mesmo, ela acha, mas consequência de uma ideia sólida que traz um aprimoramento. Com a experiência e o tempo, talvez, ela chegue lá. Por enquanto, essa obra de arte que ela projetou é como deve ser, digna de sua época. Resistirá o tempo que se espera que uma ponte resista e sobreviverá a todos que a construíram. Será, nessa paisagem, uma ponte necessária e serena.

As águas do rio têm um tom marrom claro, contornadas pela vegetação com seus verdes e o azul cristalino do céu onde brilha um sol de rachar.

Ainda faltam vários complementos para que possa ser inaugurada, mas ela já está ali, erguida, elegante e leve.

É euforia o que Lela sente, observando o lugar.

A ponte supera os limites do espaço, une o separado, conquista os obstáculos da natureza. Une e reúne o que antes existia incomunicável, e permite o contato, a passagem. Quase sem perceber, ela repete baixinho, para si mesma, sua citação predileta: “A obra que provavelmente será nosso monumento mais durável, e transmitirá algum conhecimento de nós à posteridade mais distante, é uma obra de indisfarçada utilidade; não um santuário, não uma fortaleza, não um palácio, e sim uma ponte.”

A seu lado, o Eng. Boucinhas, atencioso e afável, aponta para o nível da água e da enchente máxima, e fala sobre a profundidade do rio, de navegação e travessia impossíveis por seus redemoinhos.

Ceprillo se aproxima e começa uma conversa bastante áspera com Boucinhas. A tranquilidade do local é perturbada. Ceprillo mostra seus cálculos. Lela tem o mesmo entendimento que Boucinhas: o que Ceprillo defende é inútil e improcedente. Por fim, dão o argumento por encerrado e Ceprillo se afasta, parecendo bufar. Que cara desagradável!, pensa Lela. Até em um local como esse, as relações de trabalho conseguem anuviar o ambiente.

Passam algumas horas ali. Se pudesse, ela ficaria mais. Atravessa várias vezes de um lado para o outro e é como se estivesse enamorada do lugar. Na hora de partir, promete a si mesma que dará um jeito de voltar no dia da inauguração. Quer ver os carros passarem e a ponte adquirir a vida que terá daí em diante.

Em menos de uma hora, chegam à cidade mais próxima, onde pernoitarão.

Uma cidade pequena e pobre, parecendo ter sido criada ao léu, sem lógica aparente, como tantas outras na Colômbia, no Brasil, em qualquer lugar da América Latina. Ruas de terra, casas pequenas de cores apagadas e algum detalhe de cor forte nas portas e janelas, uma ao lado da outra, ou atrás; uma espécie de praça, uma pequena igreja sem graça, três ou quatro bares meio desmantelados com mesas e cadeira de latão, um armazém. Os postes de luz minguada e difusa realçam a precariedade das coisas que deveriam iluminar.

Sartori, Boucinhas, que seguiu viagem com eles, e Lela vão procurar algum lugar aberto onde possam comer alguma coisa. Ceprillo fica no hotel precário, na verdade uma pequena pensão.

Encontram um boteco no meio do largo que parece ter a intenção de ser praça, sentam-se e pedem o que tem. Que bom que tem “tamales”, prato típico de milho, recheado de carne de porco e franco, envolvido em folha de bananeiras, que Lela adora.

Ainda é começo de noite, e um grupo de crianças brinca por perto. Curiosos mas ressabiados param um momento para examinar os forasteiros. Magricelas, barrigudas, pés no chão, logo voltam a brincar, despreocupadas e ruidosas, como é da natureza das crianças.

O dono do bar põe o prato na mesa e os três comem, famintos, enquanto Sartori continua com suas histórias. Seu tique, que era engraçado no começo do dia, já se tornou cansativo, e ele enfia a comida na boca sem parar de falar. Lela mantém os olhos nas crianças na rua.

Uma caminhonete velha entra, veloz, no largo da praça, entre uma nuvem de poeira. Antes mesmo dos faróis iluminarem alguma coisa, as crianças desaparecem como por magia.

A caminhonete é estacionada com estardalhaço na porta do bar; dá pra ver que tem dois ocupantes, e o som de um “vallenato”, a mesma música que Sartori queria escutar no carro. Tocada a todo volume, o som animado invade o local. Sartori abaixa um pouco a cabeça e sussurra: Paracos. Emudece por um segundo, mas logo continua, nervoso, Vamos voltar pro hotel. Mas não juntos, pra não dar na vista.

Tudo que faremos dará na vista, diz Boucinhas. Melhor sairmos todos de uma vez, normais e tranquilos. Já terminamos e só falta pagar, o que posso fazer para os três. Mal terminou de falar, se levantou e pagou a conta, enquanto os dois sujeitos fortes, armados e barulhentos desciam da caminhonete, deixando o som ligado na mesma altura.

As poucas casas cujas portas e janelas estavam abertas antes, agora estavam fechadas. A cidade parecia ter ficado menor e mais escura.

:: Postado por Ray Silveira às 05h59
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Teus olhos de deus serpente, que brilhavam como o cristalino de todas as águias, puderam ver longe, puderam ver o futuro. Aqui estou, fortalecido com teu sangue, ainda não morto, ainda gritando.”

O céu assumira um tom negro de azul, mas o sol conseguiu romper o cerco um pouco além à esquerda, e a luz cinza-perolada começava lenta a envolver a cordilheira.

O ar seco e gelado carrega um forte odor de excrementos, palha e suor.

O silêncio é tão vasto que a respiração dos homens se junta à pulsação entranhada na terra.

Um condor levanta-se e sobrevoa o céu agora já um pouco mais iluminado e, tal fosse o bater dessas asas o sinal esperado, do nada aparecem centenas de bandeiras incas tremulando as cores do arco-íris.

É o exército rebelde que as levanta, armado de atiradeiras, pedras, pedaços de madeira, lanças e algumas dezenas de fuzis. À frente, José Gabriel Tupac Amaru em seu cavalo branco, paramentado para a batalha, com um mosquete, duas atiradeiras trançadas ao peito e uma rodopiando nos ares pela força de sua mão direita.

Seu cavalo empina e relincha.

A avalanche indígena desce com o bater de milhares de pés levantando pó e pedregulho, bocas se abrindo em uivos e gritos, mãos girando atiradeiras no ar, cascos de cavalos esmigalhando os pedregulhos e a terra sobressaltada do chão. O ar seco da madrugada enche os pulmões; adrenalina agita o ódio puro e palpável. Os corpos são feixes de energia pura, o medo vencido pela embriaguez da ação e, tomados pela até então inconcebível expectativa de vitória e antecipação de sangue e morte, sentem o que jamais, jamais sentiram antes: um orgulho pleno, selvagem e feroz.

Eles são quem são – uma avalanche, sim, uma força da natureza, sim, porém movida pela mente e coração de homens – e se arremetem em fúria pela encosta da serra sobre o pueblo de Sangarara.

Quem acorda sobressaltado com o alarme das sentinelas é o Corregedor Cabrera, que pula da cama e escancara a janela. Dá pra ver perfeitamente o rio humano descendo a encosta, o ribombar dos pés, os gritos e rolar de pedras, o relinchar dos cavalos. Cheio de carnes e prepotência, o corregedor é um digno representante das autoridades espanholas para quem os indígenas nasceram servos, e bestiais. O pensamento de que possa ser derrotado por uma tropa dessas é algo incapaz de penetrar em sua cabeça, mais ainda depois que recebera bons reforços do Cuzco dias atrás. Sente, no entanto, um surto vertiginoso de pavor ao ver o quase incompreensível enxame que desce a serra, fazendo-a vibrar com o rugido de um terremoto. Coloca às pressas sua casaca – há vários dias estão em alerta e ele se deitara praticamente vestido – e, talvez ainda um pouco entorpecido pela visão inesperada, e pelo álcool ingerido na véspera, tem a infeliz idéia de esbravejar a ordem de armar sua defesa a partir da igreja e para lá insiste, em altos brados, que vá a população de criollos, e que as tropas arrastem até lá o canhão que viera de Lima.

O pueblo se transforma em um corre-corre apavorado em direção à grande igreja, a maior da região. Exatamente como zombara Andrés: como explicar essa atração irracional que a elite colonial tem pela proteção da igreja? Acreditam-se tão escolhidos por Deus a ponto de imaginar que ele próprio descerá entre raios aniquiladores para defendê-los? O que passa pela cabeça de um chefe que enfia seu canhão em uma igreja?

Os soldados e o comandante das tropas que vieram do Cuzco estão perplexos com as ordens recebidas, mas são ordens, e arrastam o canhão, como lhes fora ordenado.

Lá, apinhados, não esperam muito tempo.

A igreja logo é cercada pelo assombroso número dos rebeldes, e seus ocupantes não tardam a constatar que, amontoados ali, sem condições de escapar, criaram para si mesmos uma armadilha. Sem ousar, nem por um milésimo de segundo, reconhecer a besteira suicida que cometeu, o corregedor se põe apoplético. Que esses vermes indígenas infames ousem atacá-lo e colocá-lo em tal situação é algo que exorbita sua capacidade de raciocinar. Está cego de fúria e pânico. Perde o controle e qualquer resíduo de bom senso. Esbraveja, dá ordens sem sentido, caminha de um lado a outro, arfando aturdido, incontrolável.

O exército rebelde ergue uma muralha humana ao redor da igreja. Ainda é possível colocar ordem em sua marcha, mas não detê-lo.

Quando, quase imediatamente, o corregedor recebe um emissário de Tupac Amaru pedindo que todos se entreguem com mansidão e que deixem sair mulheres e crianças, e também os mestiços e criollos que quiserem passar para o lado dos rebeldes, que serão bem recebidos porque o único alvo dessa guerra são os espanhóis, o corregedor vocifera quase sem ar e proíbe que saiam sob pena de matar um por um, ali mesmo.

Uma mensagem dos rebeldes é enviada ao cura, pedindo-lhe que consuma as hóstias sagradas para que o corpo e o sangue do Senhor Jesus Cristo não testemunhe o que haverá de acontecer em sua morada.

E, pela última vez, o comando rebelde insiste para que a população de nativos, criollos e mestiços saia. Alguns mais afoitos tentam, mas são fuzilados ali mesmo dentro da igreja, a sangue-frio pelos soldados realistas, cumprindo as ordens caóticas do corregedor. O comandante que viera do Cuzco, em certo momento, tenta enfrentá-lo e é também fuzilado no instante por insubordinação. A população dentro da Igreja se converte em um bloco imobilizado e em pânico.

O ataque começa.

Com atiradeiras, pedras e suas poucas armas de fogo e lanças, a muralha indígena se move e avança. O corregedor dá ordens para que usem o canhão do interior da igreja, ainda que não seja possível posicioná-lo como o bom senso exige. Os armeiros pressentem que não vai dar certo e vacilam, mas o corregedor, ele próprio, detona o pavio. O canhão explode de chofre, matando os que estão próximos, derrubando o teto e ateando um incêndio na igreja. Quem tenta escapar das chamas, é abatido pelos rebeldes do lado de fora.

Apesar da desorientação inicial dos realistas, a batalha não é fácil. As tropas que vieram do Cuzco opõem grande resistência e só depois de seis horas são completamente derrotadas, mortos seus chefes e o Corregedor Cabrera.

O chão da igreja está coalhado de cadáveres, boa parte soterrada pelo teto explodido pelo canhão. Ao entrar ali e percorrer os destroços, Tupac Amaru lamenta os corpos de mestiços e criollos, a quem, como diz sempre em suas cartas e comunicados, “Nunca foi meu propósito causar nenhum prejuízo, mas que vivamos como irmãos, congregados em um só corpo.”

Do lado de fora, a massa rebelde, inebriada pela vitória, não lamenta nada: ecoam tambores, trombetas, pututos, gritos de exaltação e euforia. Talvez pela primeira vez, sintam de fato que algo realmente novo é possível, que a força dos espanhóis não é invencível, que eles têm, sim, capacidade para derrotá-los. A batalha de Sangarara entrará para a história como a prova de que podem vencer. Mensageiros saem em todas as direções para anunciar a força do Rei Inca.


Maria José Silveira é goiana e mora em São Paulo. É formada em Comunicação e em Antropologia, e mestre em Ciências Políticas. Foi sócio-fundadora da Editora Marco Zero e trabalhou na Cosac&Naify Edições. Tem cinco romances publicados, entre eles “A Mãe da Mãe de sua Mãe e suas Filhas”, com o qual recebeu o Prêmio Revelação da APCA, 2002; “O Fantasma de Luís Buñuel”, menção honrosa do Prêmio Nestlé, e “Eleanor Marx, filha de Karl”, publicado na Espanha e no Chile. É também autora de cerca de 10 livros para jovens e 6 para crianças, além de ter participado de várias antologias. Mantém o blog www.mariajosesilveira.wordpress.com. Seu próximo romance, “Pauliceia de Mil Dentes” será publicado em 2012, pela Ed. Prumo.

:: Postado por Ray Silveira às 05h51
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Orides Fontela

 

FALA

Tudo

será difícil de dizer:

a palavra real

nunca é suave.

 

 

Tudo será duro:

luz impiedosa

excessiva vivência

consciência demais do ser.

 

 

Tudo será

capaz de ferir. Será.

agressivamente real.

Tão real que nos despedaça.

 

 

Não há piedade nos signos

e nem no amor: o ser

é excessivamente lúcido

e a palavra é densa e nos fere.

 

 

(Toda palavra é crueldade)

 

 

 

A ESTRELA DA TARDE

A estrela da tarde está

madura

e sem nenhum perfume

 

 A estrela da tarde é

infecunda

e altíssima

 

 

Depois da estrela da tarde

so há:

o silêncio.

 

 

 

HAMLET

 ...mais filosofias

 que coisas !

 

Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 21 de abril de 1940. Começou a escrever poemas aos sete anos de idade. Aos 27 anos, deixou sua cidade natal e veio morar em São Paulo, com dois sonhos na cabeça: entrar na USP e publicar um livro. Cumpriu os dois: fez Filosofia e publicou seu primeiro livro, Transposição. Depois de formada publicou Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo 1969-1988 (1988) e Teia (1996). Com Alba , recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983; e com Teia , recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996. Sempre com dificuldades financeiras, no final da vida, acabou sendo despejada de seu apartamento no centro da cidade e foi viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante, um velho prédio na Avenida São João. Morreu em Campos de Jordão, aos 58 anos, no dia 4 de novembro de 1998, de insuficiência cardiopulmonar.

:: Postado por Ray Silveira às 02h27
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Dois Poemas de Laís Chaffe

Laís Chaffe


 

No ar

 

Há uma palavra no ar

tento fisgá-la em vão

com essa vara alada

de versos.

 

Há uma palavra que afunda

tento trazê-la à tona

com essa rede rasgada

infecunda.

 

Imploro a palavra-peixe

tento salvar-me a tempo

do naufrágio que chamam

silêncio.

 

 

1º lugar no 1º Concurso de Poesia da Biblioteca Leverdógil de Freitas/ Porto Alegre, julho de 2004.

 

 

Travesseiro

 

 

Em ti repouso o que em mim mais pesa

e segues leve.

 

Como levas?

 

Confio-te sono e ânsias.

Entrego a nuca à tua calma de lavanda.

 

De onde a trazes?

 

Enfronhado em linho, acolhes exaustão,

fantasmas.

Pergunto-me e não respondes:

que queres deles

e dos murmúrios e gemidos

que ouves sem susto?

 

A quem pertence essa saliva?

 

Quem se molda a quem

nos mil silêncios de uma noite?

 

 

 

 

Laís Chaffe nasceu e mora em Porto Alegre, onde iIdealizou e está à frente do projeto Cidade Poema (www.cidadepoema.com), que vem levando poesia às ruas e a espaços públicos desde 2009.

Escreveu Minicontos e muito menos (Casa Verde, 2009), Instante Estante - Laís Chaffe (Castelinho Edições, 2011), Medusa (Casa Verde, 2011) e Não é difícil compreender os ETs (AGE, 2002, 112p). Também é diretora, roteirista e produtora executiva do documentário Canto de Cicatriz (37min, 2005); roteirista e diretora (com Gustavo Brandau) do curta-metragem Identidade (15min, 2002); e roteirista e produtora executiva do curta Colapso (15min, 2004). 

 

:: Postado por Ray Silveira às 02h55
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Patrícia Sotello

Os bichos que vi

  Ontem, eu vi um bicho. Imaginei que ele fosse livre, pois estava solto – sem coleiras ou amarras. Avistei-o de longe e, sem compreender seu comportamento, fiquei apreensiva e curiosa. Fazia de uma esquina o seu refúgio, e pareceu-me atormentado em sua solidão, já que, agressivo, avançava em qualquer um que se atrevesse a invadir o limite imaginário que havia estabelecido naquele espaço público.

 Tentei pensar em outra rota, porém meu caminho e meu destino já estavam invariavelmente traçados. Segui em frente e, conforme nossa inevitável aproximação acontecia, minha visão ficava cada vez mais clara, até que, estupefata, pude perceber que o bicho devorava pedaços de carne crua ao mesmo tempo em que seus olhos ávidos percorriam incessantemente todas as direções. Compreendi que sua agressividade se originava no egoísmo peculiar da loucura chamada fome.

Ontem, eu vi outros bichos. Imaginei que também eles fossem livres, pois estavam libertos em seu ir e vir. Passavam próximos daquele primeiro bicho que já tinha perdido todos os limites de sua ínfima existência. Faziam de sua condição social o seu refúgio, já que, atormentados em seu preconceito, avançavam seus olhares agressivos e desdenhosos na direção do bicho primeiro, rejeitando-no, principalmente, em seu existir.

 Ontem, depois de ver todos esses bichos e observá-los de perto, compreendi que nenhum deles era livre... e vi as mais variadas formas de prisão – desde a completa renúncia à dignidade até o mais puro egoísmo – em meio a uma frágil e restrita liberdade. E constatei que os bichos assim o são porque dessa forma se inventam; que sutil é o limite entre ficção e realidade; e que a arte não imita a vida, mas sim a delata. E o lamentável nisso tudo? Todos esses bichos que vi intitulam-se HOMENS.

 Uma crônica sobre rostos de mulher

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve ser escrita para mulheres. E para homens também. Para os homens dessas mulheres. Pois, sem eles, elas não seriam mulheres por inteiro, assim como eles seriam homens pela metade sem elas, suas mulheres, suas companheiras de uma vida ou de um dia. Suas esposas, suas amigas, suas mães, sua sina.

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve ser escrita em todas as línguas, e em língua alguma. Porque em qualquer e toda língua e, mesmo em sua ausência, se é mulher. Difícil, há que se entendam e aceitem as sutilezas dos impasses linguísticos, é saber se fazer ouvir quando se é mulher.

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar sempre de amor. Do amor desmedido que surge do abandonar-se para, mais tarde, se não for tarde demais, resgatar-se. Do amor incondicional de que apenas as grandes mulheres são capazes, muitas delas analfabetas, pois não é mister ser letrada para ser mulher. Para isso, sim, basta saber-se renúncia.

Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar de máscaras. Máscaras de filhas, irmãs, mães, namoradas. Esposas, amigas, chefes e chefiadas. Máscaras de bruxas e também as de fadas. Ela deve falar das máscaras escolhidas, das impostas, das ajustadas e das mal colocadas. Das nem tão libertas em biquínis e das mais aprisionadas ainda em burcas.

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve mesmo falar de rostos. Aqueles revelados na inutilidade das máscaras. Redondos, ovais, triangulares, quadrados. Jovens e já nem tanto. Rostos em meio a rugas, outros em maquiagens. Dos marcados. Pelo tempo e por cicatrizes de bisturis e de violência. Porque rostos de mulher, apesar de belos, são ainda violados.

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar de abundância e de escassez. Ela deve falar sobre fartura de bem-querer e de lágrimas. Deve também falar sobre falta de má vontade. E deve falar de convivência e conivência. De bem servir e querer ser bem servida. Que fale de desejos, aspirações, metas a cumprir, objetivos a alcançar e sonhos a realizar.

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve conter susto e espanto. Pois, um rosto de mulher, por mais que já tenha visto, nunca viu o suficiente. Deve conter verdade. Porque, em um rosto de mulher, ela, a verdade, sempre será desvendada em um par de olhos, ainda que voltados para o chão. A crônica deve conter erros, haja vista serem o melhor caminho para a humildade necessária ao aprendizado.

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar sobre busca. A busca na memória do ponto em que se perdeu ou foi perdida. Do dia mais feliz de toda vida. Do dia do encontro consigo e com o outro. De insights e epifanias. Da busca pelo nó outrora atado. Pela teia em que se achou um dia enredada. Da busca pela felicidade imaginada na infância.

 Uma crônica sobre rostos de mulher deve falar de paz. Da paz realizada em cada acanhado ato. Da paz almejada ao calar. Da luta pela paz que gera o grito. Também deve conter um alento, um sopro de esperança para a omissão que leva a paz embora. E que fale de coragem. Da coragem emergida ante as dificuldades do existir em um mundo masculino. Da coragem de ser homem quando se é mulher.

 Uma crônica sobre rostos de mulher há de conter o mundo. Deve falar de inundação e de aridez. De prantos e sorrisos. De mesa posta e de fome. Fome no estômago e fome de saber. De prazer e de não saber o que é isso. De paixão e comiseração. De dignidade e indignação. De passado e futuro e, principalmente, de presente. Do presente que é viver.

 Que fale de angústia, mas que seja uma oração. Que fale de preconceito, mas que cite o perdão. Que seja, toda ela, poesia em forma de prosa. E que, por fim, fale de prova. Uma crônica sobre rostos de mulher só não deve falar...

 É de desistência.

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Patrícia Sotello nasceu em Canoas, RS. Morou em Santos e Salvador antes de mudar-se para o Rio de Janeiro, onde vive. O contato com os regionalismos vários e o gosto pela feitura de livros a levaram à graduação em Letras e à especialização em Produção Editorial. Trabalhou no setor de Publicações da Academia Brasileira de Letras, onde colaborou na edição de Cartas de Erasmo, de José de Alencar, e Cinematógrafo, de João do Rio, além dos Discursos Acadêmicos e da Revista Brasileira. Atualmente, é revisora em editoras brasileiras e estrangeiras, tendo revisado textos de Mario Vargas Llosa, Will Self, H.G. Wells, Stephen King, Carlos Heitor Cony e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Possui alguns textos publicados em livros e outros no blogue: http://patriciasotello.blogspot.com.

 

 

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                    Nilze Costa e Silva

 

 

 

Nós chegamos lá


Quando em 1791 Olympe de Gouges, revolucionária francesa, lançou o manifesto “Declaração dos Direitos da Mulher”, denunciando a Declaração dos Direitos do Homem (restritos ao sexo masculino), pagou caro por essa ousadia. Foi condenada sob o veredito de querer “exercer funções masculinas e esquecer as virtudes próprias do seu sexo”. Morreu guilhotinada. Era uma defensora da democracia e dos direitos das mulheres.

Mais de dois séculos se passaram. Entre tantas mulheres heroínas e lutadoras que tombaram insubmissas ao poder machista, surge uma nova Olympe de Gouges, que resistiu à decapitação moral que tentou arrastar seu nome ao lamaçal das injúrias. Quantas vezes ameaçada, chamada de assassina, matadora de criancinhas, “dilmão”, mentirosa, terrorista e impostora, Dilma ergueu a cabeça e enfrentou os inimigos com a audácia de uma guerreira! Quantas vezes cansada e com olheiras, ela insistia: estou preparada para governar o Brasil.

Tentaram destruir a imagem de Dilma de forma machista e preconceituosa, não considerando sua trajetória de luta em defesa da democracia nos períodos mais árduos da ditadura militar que assolou o país na década de 60 e começo de 70. Na época, ainda jovem, foi torturada por longo tempo, mantendo, no entanto, suas convicções de liberdade. Candidata a Presidente da República em 2010, teve entre seus perseguidores alguns dos maiores admiradores do golpe militar de 64, que ceifou parte das liberdades individuais do povo brasileiro. Seus opositores usaram até o nome de Deus para armar um clima de guerra suja, durante todo o período eleitoral. E ainda se diziam do bem. Mas essa mulher, chamada Dilma Rousseff, que esteve à beira da decapitação moral, não se deixou abater, tendo ao seu lado aquele que também venceu o medo e o preconceito.

Esse é mais um momento histórico de nossa Pátria. Em 2004 um operário é eleito Presidente da República. Em 2010 o Brasil tem o orgulho de poder ver, na força da mulher, a continuidade da transformação social que se instalou no País.

Sinto-me feliz, como mulher e feminista por ter sido protagonista desse tempo, além de coadjuvante de um processo que entrará para os anais da história do Brasil. Orgulho-me de poder assistir, na coragem da nossa primeira presidenta eleita, a continuidade de mudança para o meu país.

 

Nilze Costa e Silva nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, tendo vindo morar no Ceará com alguns meses de idade. Ainda na adolescência se apaixonou pela Literatura, lendo os grandes clássicos mundiais. Graduou-se em Administração de Empresas e logo após especializou-se em Teoria da Literatura (1986), pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR).

integrante da Rede de Escritoras Brasileiras, fundadora e coordenadora do grupo Poemas Violados. Autora de vários livros entre contos e crônicas, romance e novela, promove sistematicamente oficinas de Escrita Criativa. Integra o dicionário de Mulheres Brasileiras de Nelly Novais Coelho. No cotidiano dedica-se a questões relacionadas aos direitos humanos, tendo escrito vários artigos nos jornais do Ceará.

:: Postado por Ray Silveira às 13h29
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Textos de LÍLIAN MAIAL

 


Lílian Maial

 

Anamnese

Era uma dor muito estranha.
Aguda e lancinante, que fazia suar e ter vertigem, por vezes, uma lágrima.
Durava o tempo que se a sentisse.
Rastreados os órgãos, fígado, baço, rins, tudo em ordem.
Pele, músculos, nervos e tendões sem avarias. E a dor lá, doendo.
Tomava todos os analgésicos inventados, tinha conta na farmácia. E a dor não passava.
Dentista, homeopata, clínico geral e, mesmo, geriatra não detectavam a origem.
Chegou a consultar mãe de santo.
Fez trabalho no mato, jogou búzios, procurou cartomante, bebeu poções.
Não adiantava.
Toda vez que olhava o espelho, lá estava a dor.

 

  ****************

 

FEBRE
 
Era só pensar nele que surgia a febre. Febre alta, absurda, de estourar termômetros. Febre e fome.
Vivia num clima quente, mas a quentura de dentro não se comparava. E não baixava. Podia tomar banho frio, fazer compressa de álcool, se abanar e até morar num aparelho condicionador de ar, que a temperatura não cedia.
O calor era tanto, que irradiava. Emanavam ondas infernais de todo o corpo.  Uma quentura tão devastadora, que, por onde passava, ia queimando cortinas, pifando eletrodomésticos,
incendiando lençóis e desejos.  Tudo pegava fogo ao mais simples olhar. Uma febre terçã, provocando convulsões nas entranhas e um abafamento de palavras e gemidos.
Não tinha cura, não tinha remédio.
Bastava pensar naquele homem.
*******************

DUAS

Somos duas
Não gêmeas, ambas fêmeas,
Somos duas.
Uma destra, outra sinistra,
Uma levada, outra anarquista.
Uma sofisticada, outra caseira,
Uma bem amada, outra presepeira.

Somos duas.
Uma que ama, outra que reclama.
Uma que vence, outra que convence.
Uma que estuda, outra arquiteta.
Uma selvagem, outra irrequieta.
Somos duas.
Uma te quer, outra te repele
Uma é mulher, outra mademoiselle.
Uma sente muito, outra é prisioneira.
Uma guarda tudo, outra é fuxiqueira.

Somos duas.
Uma livre, libertina.
Outra simples, na cozinha.
Uma ardente, sensual.
Outra silente, casual.
Somos duas
Somos opostas
Somos compostas
Somos dispostas
A ser uma só.

******

LÍLIAN MAIAL é carioca, médica, escritora e poeta. Publicou, em 2000, “Enfim, renasci!”, com 135 poemas seus, e tem mais 04 livros no prelo. Participação em dezenas de antologias, desde 1999.

Coordenadora Regional no Rio de Janeiro para o MIP (Movimento Internacional Poetrix), teve poetrix publicados, em 2002, na “Antologia Poetrix”, em 2007, na “Antologia Poetrix II”, e em 2009, na “Antologia Poetrix III”, além de ter organizado um e-book com poetrix de 10 participantes do MIP.

Filiada à REBRA (Rede de Escritoras Brasileiras), participou de 04 antologias lançadas nas Bienais do Livro de São Paulo.

Filiada à APPERJ (Associação de Poetas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro).

Consulesa do Rio de Janeiro para o movimento POETAS DEL MUNDO.

Tem seus trabalhos divulgados em inúmeros sítios nacionais e internacionais, é colaboradora de revistas eletrônicas em vários Estados do Brasil e no exterior.

 Homepages: www.lilianmaial.com - http://lilianmt.zip.net - http://lilian.maial.zip.net

E-mail: lilian.maial@gmail.com

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"Nos Lençóis"

 

Maria Aparecida S. Coquemala

   

 

Maria de Lurdes

 

Naquela noite memorável, eu quase derretia de calor sob o lençol barato, assim tentando me proteger das muriçocas que zuniam no ouvido, me tapeando, na inútil tentativa de matá-las. Meus pés coçavam... Impossível dormir. Das Dores e Aninha tinham saído em busca de repelentes, eu estava sozinha na cabana escura da pousada, a mais de cinco mil quilômetros de casa, me perguntando o que me arrastara àquela aventura. Sempre gostei de viajar, conhecer diferentes cidades, costumes, paisagens... Ou algo mais profundo? Tendo chegado atrasadas a Tutóia, os carros conduzindo turistas para os Lençóis Maranhenses já tinham partido, então Marlon, um jovem mecânico, nos levou em sua Toyota por improvisados caminhos, longe das levas turísticas, entre paisagens deslumbrantes. Deslizávamos nas dunas, caindo nas águas quentes das piscinas naturais sob o sol abrasador, chuva em intervalos, qual ducha reconfortante. Peixe fresco, arroz e suco de frutas, o jantar. E nada mais era preciso naquele paraíso tropical, sem TV, sem telefone, sem jornais, hóspedes únicas nos confins do Brasil. Amigas demoravam, saí, o céu era negro, profundo, coalhado de estrelas enormes.

         Voltaram com repelentes, mas preferi a rede estendida na varanda, um jeito de enfrentar o calor, desfrutar da beleza da noite e refletir sobre minha vida. Então aconteceu. Miados chegavam de longe, chorosos... Fui procurar o gatinho e...

 

                   Aninha

 

         Eu ouvia miados, impossível dormir, e era tanta a preocupação, amiga lá fora, na rede, sozinha, sabe-se lá por que passava, notava-a às vezes tão estranha na viagem, tão enfiada em si mesma, só Deus pra saber no que pensava. Sempre séria, equilibrada, passava ao largo das tentações, entre filhos, marido, trabalho. Então cessaram os miados, certamente tinha amparado o gato solitário, morre de pena de animais, mas achei melhor levantar, ver o que se passava, o lugar parecia seguro, porém, nunca se sabe, tem sempre uma primeira vez, e me sentia assim, meio responsável, relutara quando insisti na viagem, vinha, não vinha? Fui conferir, ou não dormiria. Não estava na rede. Procurei mais longe, me afligia, e se algo ruim tivesse acontecido naquele fim de mundo? Nisso, ouvi o que me pareceu uma risadinha abafada, vinda das dunas, me aproximei cuidadosa, bem perto, bem... Meu pai do céu!!! Pensei ser ilusão dos meus olhos, miragem, ali estava ela deitada na areia abraçada ao Marlon! Ah, os miados... Certamente uma senha, um chamado, algo combinado, eu mio, você vem. PQP! Tão certinha... Era o caos. Melhor ficar calada, dar umas voltas. Talvez outro gato miasse naquela noite de estrelas imensas e mistérios felinos.

 

                   Sidarta

 

         Eu estava lá, escondido entre as dunas, coração se acelerando. Queria acertar contas com o gerente da pousada, tinha me denunciado por roubo de turistas. Sabia que ele passaria por ali, rumo à sua casa. Eu! Que jamais roubei na vida inteira, exceto inocentes beijos de viajantes carentes. Cobraria os dias na prisão com juros de sangue, pensava, acariciando a faca... Nessa expectativa, miados me perturbaram, sempre detestei gatos, faziam crescer o ódio. Então vislumbrei a mulher entre as dunas, miava olhando para os lados. Louca, pensei.  Miei também, me viu, se aproximou.  Guardei a faca.  Hoje, sei que se ela não miasse, nada teria acontecido. Não teria recuado da minha vingança, nem ficado ali feito bobo falando com ela, ouvindo suas histórias, não estava perdida, não senhor, tentava achar um gato, por isso miava. Ai de mim... Com isso, ia esquecendo o Judas, e pra encurtar a história, me liguei de tal modo à moça mienta, que casei com ela, ah, que cruz, me alegra na cama, mas me tornei um lavador de pratos, um limpador de casa, um tratador de gatos, pau pra toda obra... Amo/odeio Aninha, minha mulher.

 

                   Das Dores

 

         Eu tinha exagerado na bebida, estava confusa na cabana, tento reproduzir a mim mesma os acontecimentos daquela estranha noite maranhense, jamais devidamente explicados, feitiço talvez do céu escuro, cheio de estrelas como jamais tinha visto. Ouvia miados, raciocinava, se existiam miados, existia gato. Ou não? Podia-se ouvir um miado vindo do nada? Não, claro que não! A Natureza rejeita o nada. Nada não há. Ilusão dos sentidos? Convinha analisar antes de sair às tontas à procura de um gato de duvidosa existência. Apliquei a silogística, onde tem miado, tem gato. Ouvia miados. Então tinha gato. Pronto, existia um gato. Bom ter estudado os filósofos. O gato existia. Dúvida nenhuma. E eu? Existia? Ou, como em filmes de Hollywood, um robô com cérebro programado, inseridas lembranças da vida? Havia miado de gato vivo, gato-gato, ou imagem implantada no meu cérebro, gato não havia, eu não era eu? Dúvidas e mais dúvidas. Amiga tinha saído à procura da origem dos miados. Amigas existiam? Achei melhor andar pelas dunas na estranha noite de felinos e estrelas enormes.

 

 

 

                   Poeta bebum

 

         Ela caminhava como um pêndulo na areia, não havia pegadas atrás, mas era como se houvesse pegadas na frente, não saberia explicar. Misturara remédios procurando um bendito, ou maldito, gato que miava? Adora gatos? Mas os miados tinham cessado, havia mesmo um gato? Estava tonta, parece que desmaiara, os pés inchados, a pele queimando à luz estelar, não havia piscinas naturais, somente dunas e dunas... Que deserto era aquele? Eu queria gritar por socorro, a voz não saía, a garganta estava seca, a cerveja acabara, o pigarro me doía na alma, e ela chorava a seco, não havia lágrimas, estava toda machucada, como se tivesse levado uma surra entre o transporte da realidade para o sonho, ou uma realidade substituta, tinha medo, muito medo, havia luz num lugar qualquer, mas estava insegura, não encontrava gatos, só cactos. Que lugar era aquele não-lugar, o que ela estava fazendo ali, perdida, cadê as amigas, que gato de sete vidas que procurava para ajudar, se mal se tem uma vida? Aquilo era vida ou desmundo?  Senti falta de ar, formigamento no corpo todo, vertigem, tremor, sudorese, calafrios, taquicardia...

 

                   Proprietário da pousada

 

            Chamado de madrugada por estranho poeta cheirando a cerveja, encontrei a turista Das Dores desmaiada nas dunas, a camiseta toda rasgada, penso que por unhas de gato. Levei-a de volta à pousada, cheirava a cerveja também. O poeta desapareceu, declamando versos às estrelas...

 

                   Relato de Marlon

 

            Quando as três mulheres chegaram, o ônibus que leva turistas aos Lençóis já tinha partido. Então me contrataram, levei-as através das dunas, um caminho alternativo que só eu conheço, comemorando intimamente a oportunidade de ganhar um dinheirinho a mais. Ai de mim... De cara, uma delas me lançou olhares suspeitos, me chamando de querido, de grande astro, de Marlon, o Brando, me propondo noites de assanhamentos como jamais eu imaginara, descrevendo cenas de nós dois sozinhos, rolando nas dunas, sob o céu estrelado. Sou tímido, amaldiçoava a hora em que minha mãe me dera esse maldito nome, me preocupava, tenho pai pastor de igreja. Ai de mim, se a conversa vazasse... A enorme mala de roupas que ela carregava e o monte de chapéus sobrepostos na cabeça me intrigavam. Para as fotografias, dizia, piscando. Comigo? E apavorado, já imaginava as fotos. E remexia no porta-luvas, descobria preservativos com validade vencida, ria debochada, mulheres ariscas, contando tudo alto às amigas, que tentavam em vão segurar as risadas. Muitas as conversas, apresentava as companheiras, fiquei sabendo que Maria de Lurdes era tradutora, mulher pensativa, certamente saudade de casa; que Aninha era empresária; e ela mesma, mestra de filosofia. Vinham do Sul, viajavam de férias.  E naquela noite de tantos mistérios, saí da pousada às altas horas, estava sem sono, excitado, resultado da conversa daquela sirigaita linguaruda, fui andar um pouco, espairecer. De repente, algum capeta me cutucou, ou feitiço da noite de céu absurdamente estrelado, comecei a miar imitando um gato, se alguém aparecesse, diria que era gracinha, no íntimo sabendo o que meu corpo queria. Apostei comigo mesmo, sirigaita assanhada vai aparecer... Mas não, para minha surpresa, quem apareceu foi Maria de Lurdes, chamando com voz suave, venha gatinho, vou cuidar de você. Queria me explicar, mas, qual não foi meu espanto quando ela desandou a rir. Minutos depois, rolávamos prazerosos na areia.

            Na madrugada, apareceu Das Dores, tinha-se perdido nas dunas. E encontrada por estranho poeta, que desapareceu tão enigmaticamente quanto tinha surgido, declamando versos às estrelas e à sua musa-vítima. A moça cheirava fortemente a cerveja, não sabia explicar os acontecimentos da noite, sequer como rasgara a camiseta. Pude imaginar o que tinha rolado entre a filósofa e o poeta, mas tenho vergonha de contar. Também Aninha voltou de manhã, pendurada no pescoço de ex-funcionário da pousada, ninguém entendendo a súbita paixão. Nunca mais conduzi turistas tão interessantes. Até hoje mio à noite entre as dunas, mas ninguém responde.  O´saudade...

 

 

:: Postado por Ray Silveira às 14h25
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TÍMPAMEN

Susan Blum

Ela, uma garota de treze anos. Ele, um homem de trinta. Se encontraram por acaso na rodoviária de São Paulo. Ele, retornando de uma palestra que fez no Rio. Ela, vindo do interior de Minas para ficar na casa da ex-patroa de sua tia. Olhares trocados rapidamente, nem palavra sequer.
O acaso levou-a a ser vizinha dele. Passavam dias apenas se olhando. Ele, observando a virgindade dos gestos, a inocência da curva dos quadris, as orelhas pequenas bem feitas. Ela, admirando o olhar experiente, a fala inteligente de quando conversava com a patroa.
Um dia, aproveitando a saída da mulher, ele se aproximou do muro baixo e a chamou. Disse que havia necessidade de lhe dizer algo e pediu que ela lhe desse o ouvido. Ela, um pouco desconfiada, cedeu...
Ele, primeiro sussurrou seu nome e pequenos perdigotos umedeceram a concha, preparando-a.
Depois, sua voz, como vento aveludado, se insinuou nos labirintos de seus ouvidos, penetrando-a com as palavras eróticas nunca antes ouvidas...
Ela, extasiada com o prazer ouvido, entrou correndo na casa.No dia seguinte ela acordou assustada: o filete de sangue ainda umedecia o travesseiro...

 

 ------------------------

Sou o risco da íris, a ponta da asa da borboleta, o canto da folha em branco, o pó voando ao prazer do vento, o grito entalado na garganta, o desejo apimentado, a verdade na ponta da língua, um fragmento de amor, uma bagunça organizada, uma letra perdida no mundo, um azul intenso, a tentativa de ética, a paz solitária, o grão de tesão, a felina sapeca, o gosto de quero-mais, enfim.... sou a Susan!

Ah.. biografia? Do tipo sério-acadêmico? Hhuumm a máscara da Susan:

Susan Blum Pessôa de Moura é formada em Psicologia (PUC-Pr) e em Letras (UFPR). Aprofundou-se nos estudos literários com um mestrado sobre o espaço e o autor Julio Cortázar. Traduziu alguns poemas de Apollinaire (podem ser vistos no site www.humanas.ufpr.br/departamentos/delem/nuttraducao) e um conto de Borges (jornal do CAL). Participou de algumas entrevistas, sendo algumas: no Caderno G da Gazeta do Povo em 5 de setembro de 2004 e da revista Ciência e Cultura out/dez 2004 que pode ser lida no site http://cienciaecultura.bvs.br; ambas sobre Cortázar. Possui outras publicações (revistas acadêmicas da USP, UFSC, Patos de Minas, UFPR) além de apresentações em congressos. É pesquisadora no Grupo de Estudos sobre o espaço (UFPR) desde seu início, em 2002. Dá aulas na Universidade Positivo (PR) e ministra o curso de criação literária no CELIN da UFPR desde 2008. Doutoranda em estudos literários. E-mail: susanpessoa@yahoo.com.br ou susanblum@up.edu.br

 

:: Postado por Ray Silveira às 14h37
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Contradições

 

 

 

Daisy Melo


Enquanto aguardo a sua chegada,

busco o relógio e adianto as horas

na esperança da sua falta.

Enquanto anseio pelo seu beijo,

Trinco os dentes, mordo a língua,

E engulo a saliva e o sangue.

Enquanto meus pelos se arrepiam ao seu toque,

me visto de aço e ferro,

e encarcero todo o meu corpo.

Enquanto meu olhar de fogo se rebela e te acolhe,

meus lábios se trancam,

se calam e te negam.

Me contradigo...

Então... Meus versos surgem de desejos confusos, dispersos...

e minha alma vagueia entre metáforas livres e incertas...

por ora eu peso a razão e o não-senso.

Mas perco a conta e começo tudo de novo.

 

 

:: Postado por Ray Silveira às 11h34
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Mulher & Memória

Márcia Denser

"Tinha apenas um casaco e um par de sapatos de cor indefinida mas, ao sair, os cabelos ruivos adejavam no espelho do porta-chapéus, deixando um rastro de fagulhas elétricas, um perfume de madressilvas. E tinha dezoito anos" 



Comemora-se mais uma vez "O Dia Internacional da Mulher", e este ano eu gostaria de prestar tributo àquela que, para mim, representa o eterno feminino e que está às vésperas de partir: minha mãe. O conto A irresistível Vivien O, dedicado a ela, numa leitura mais ampla, propõe um resgate do feminino e sua memória cujo cenário é São Paulo anos 50. 
         
A irresistível Vivien O’Hara

De origem obscura e controversa, mistura de celtas, italianos e irlandeses, filha de Rosa e Dioniso Trask, um casal de fazendeiros do interior do estado cuja numerosa e estrídula família – seis meninas e três varões – emigrou para a capital durante a segunda guerra, Vivien constituía uma espécie de síntese de todo o capital estético das divas de Hollywood dos anos 50, mas como quem saca sem fundos. Quem tentasse analisá-la traço por traço, perceberia porque: eram todos irregulares. Um exame decepcionante e tão inútil quanto seguir pistas falsas. Vistos em conjunto produziam a tal síntese – a desconcertante alquimia da beleza. Conseguia parecer-se com Vivien Leigh e Maureen O’Hara e ainda reservar personalidade bastante para si própria.

De forma que Vivien deveria ter sido catastroficamente bela porque única e, consequentemente, irrepetível. Mas isto não deve ter ocorrido a Álvaro quando a quis sua mulher e mãe dos seus filhos.

Vejamos: os negros olhos circunflexos abrigavam um demÿnio fixo de rocha e pássaro, a boca, fina como um risco, subitamente se alastrava nem sorriso esfuziante inacessível marcado por covinhas: a beleza não admite pontos finais. Os cabelos ruivos ocultavam o crânio irregular onde o nariz despontava atrevido, Rita Haywoorth com pudor, sem as luvas negras ou o decote expectorante, mas a sugestão velada de tudo isso. Sutil desequilíbrio de luz e sombra, fixidez e instabilidade, estrela de uma constelação se movend o para dentro de um universo pessoal que aguardava em suspenso a vinda de Tyrone Power que a levaria para um outro céu de néon e cetim cor-de-rosa, essa garota tão tola, tão simplória, tão Cinderela montada no leão da Metro.

"Depois do banho ela imitava a Rita Haywoorth diante da penteadeira, atirando para trás os cabelos vermelhos", diz Júlia.

"Um negócio bem repugnante. Parecia borsh!", Amanda faz uma careta.

"Nunca haverá mulher como Gilda" dizia Vivien.

"Nunca haveria mulher como Vivien, queria dizer", diz Júlia.

Naturalmente, eu podia mencionar a pele salpicada de sardas de gata irlandesa, os tornozelos grossos, a ressurreição lenta pela manhã e apenas um curso primário, detalhes que a tornavam ainda mais bela, porque as mulheres verdadeiramente belas são as de carne e osso, deste lado da realidade, aquém do sonho, da foto na parede da juventude, das promessas do celulóide e ao alcance dos homens, do amor, de Álvaro, especialmente.

A irmandade materna feminina emergiu com o sonho americano na década de 50 e pergunto-me até que ponto não foram os mesmos os sonhos que assombraram minha infância quando, encantada, contemplava tia Jane ou tia Marjorie na penteadeira iluminada por lâmpadas de camarim, porque Marjie era cabeleireira tendo, presumo, íntimas ligações com circos e teatros de revista, a mesma relação feérica de rugas prematuras, cosméticas cicatrizes acrobáticas que viviam misteriosamente mudando de lugar ao sabor da fantasia, além desse perfume abafado pelo colcha chinesa de péssimo gosto, misturado ao típico ranço de mulher amanhecida que ninguém e todos sabiam o que ela fazia nas noites de sábado.

A irmandade materna emigrou do interior com a guerra, a crise do café, o cinemascope, o know-how, com as raízes cortadas também pela miséria, daí o trabalho nas fábricas de biscoitos, nos laboratórios farmacêuticos , na Casa Anglo-Brasileira, solidariamente amontoada nos cortiços do Bixiga, desmantelados e febris mas obedecendo  uma ordem invisível – as  leis não escritas dos movimentos migratórios a determinar que os jovens venham na frente abrir espaço para os pais e avós, o suficiente talvez para conter uma cadeira de palhinha na porta ensolarada do beco  onde quietamente será confinada a velhice, a ruína, o orgulho espezinhado, como também os fundamentos do altar da memória, tão mais grandiosa quanto distante no tempo e espaço, nos estreitos limites de um beco, de um assento de palhinha.

O pequeno Dioniso, o avÿ irlandês, jogador e sanfoneiro arruinado, filho único de três fazendas perdidas em mesas de pÿquer, cuja qualificação profissional consistia em não ter nenhuma, graças à sua alma de moleque e reprodutor passivo de nove filhos, o avÿ Dioniso depressa arranjou um posto de vigia noturno na CMTC para manter as aparências de chefe de famí lia, enquanto durante o dia lampeiramente fazia progressos na auspiciosa carreira de bicheiro, "Uma verdadeira mina!", proclamava entre duas risotas velhacas e apostava todo o salário na borboleta. Perseguiu-a até a morte, este bichinho tão poético.

Tia Jane seria a eterna Miss Cinelândia, por incríveis sistemas paramnésicos a Jane, namorada do Tarzan, ou Glória Grahame, amante de Lee Marvin, o gangster que lhe atira ácido na face, ela e Marjorie eram mulheres mais fatais a si próprias, fatias em carne e osso do produto ao avesso do sonho americano, do grande engano acalentado na penumbra das salas de projeção cheias de pulgas de terceira classe, as mesmas que, mais tarde, estariam picando e sugando por baixo da colcha chinesa de péssimo gosto, após o intervalo esquecido do amor entre aquele sonho e este aqui, mais próximo, feito de lençóis gosmentos e mau-hálito, racionalizando o esquecimento dos intervalos espúrios do amor, porque os anjinhos, porque a parteira, porque esses cafajestes, porque a vida realmente não era tão cor-de-rosa.

Em 1947 o verdadeiro nome do amor vinha impresso em letras douradas, assumia as formas ovais e oblongas das caixas de bombom, brilhava nos créditos e títulos na marquise do cine Marrocos anunciando E O Vento Levou, nos vestidos e toaletes, absurdas simbioses de cortinas velhas, retalhos de sofá e mosquiteiros. Se a invenção é filha da necessidade, em 1947 o pai era Darryl Zannuck.

"Viu só, Marjie? Scarlett faz o mesmo!", tagarelava Jane como quem fala da vizinha. 

E a juventude, os bolinhos do entardecer, os tipos mal-encarados, os bondes, as longas filas do pão e novamente os bondes, as matinês dançantes, as novelas da rádio São Paulo. Vivien: cabeça cheia de sonho, pés plantados na realidade. Ao acordar, lavava o rosto com sabão amarelo espiando pela vidraça o atordoante, fuliginoso casario sob um céu de filme polonês amanhecen do por entre nuvens sujas. Tinha apenas um casaco e um par de sapatos de cor indefinida mas, ao sair, os cabelos ruivos adejavam no espelho do porta-chapéus, deixando um rastro de fagulhas elétricas, um perfume de madressilvas. E tinha dezoito anos. O bastante para ser feliz.

 

:: Postado por Ray Silveira às 21h22
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Helena Ortiz - Prosa e Verso I

 

Helena Ortiz

O silêncio das xícaras

quando dei pela falta não estavam mais umas xícaras que eram do tempo de Pierre antes de Pierre ir para sempre lembrei das xícaras quando ela disse que ia embora você pode achar que isso é mesquinho mas eram minhas minha mãe me deixou aquelas xícaras e também um conjunto de copos com jarra de cristal tcheco presente de casamento eu os guardava tinham grande valor estimativo agora ela se vai  lembro que um dia lhe dei para guardar as xícaras e os copos dentro do armário que ficava na sala depois desceram para o quarto dela onde agora está juntando seus trastes trouxas nada de valor nada que importe ou que precise cuidar para embalar coisas juntadas trecos cacos cacarecos penduricalhos que se moldam a pano plástico elástico prendendo tanto tecido quanto louça bruta a louça dela sem caixote sem papelão sem passado objetos acumulados sem lembrança só coisas sem precisão não como as xícaras de porcelana o fio prateado ou os copos de cristal de minha preciosa pia pundonorosa santa mãe não deixarei que leve que se aposse dê sumiço sucumbam as xícaras nunca mais foram usadas depois e mesmo antes de Pierre as coisas dela pobres apenas juntadas mal juntadas caindo saco sacudindo não é justo vou falar com ela que não era assim espaçosa não deixarei que leve a minha ou a de minha mãe presente de casamento tcheco e o conjunto de xícaras de porcelana inglesa que estavam no armário os copos de cristal não eram nossos eram meus eram minhas não pensará que esqueci as xícaras com um fino fio prateado nunca usamos estão lá envoltas em jornal os copos a jarra inglesa a porcelana tcheca o casamento de presente pode embrulhar ela vai embora mas não pensará que esqueci as xícaras você não se lembra (a minha voz doce) de umas xícaras com um fino fio prateado meia dúzia de xícaras como já não eram seis? quando quebraram? ah quebraram ficaram só quatro estão lá envoltas em jornal as xícaras os copos as jarras as inglesas e as tchecas e o casamento onde está o armário porque eu me lembro bem você não viu por acaso (a minha voz mansa e crua) ela respeitosa juntando trouxas e trastes arrumando as suas as minhas coisas eu guardei não estavam no armário o armário eu vi muito tempo depois na casa da vizinha mas naquela ocasião os copos onde estariam não me lembrei do presente de minha mãe preciosa lembrança sem uso que foi para o armário depois foi para o quarto dela que um dia disse não quero mais o armário eu disse tudo bem o armário desceu o vizinho quis lá está ele mas só agora que se vai eu me lembro não posso me lembrar de tudo afinal por acaso você não viu sua desgraçada sua negra mentirosa por acaso você pensa que as xícaras não me farão falta as xícaras de minha doce mãezinha?

 

 

Vésperas

eterno cenário: as ruas

de há muito encardidas

cortadas pelos becos

nas calçadas

 

área de caçada

o negócio é combinado de pé

 

a chuva torrencial

não ajuda no acerto

do pagamento: nada feito.

 

das pernas párias

cuidadosamente depiladas

escorre a chuva de agosto

na rua da Glória

 

:: Postado por Ray Silveira às 15h30
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HELENA ORTIZ - Prosa e Verso II

 

Pernas puras duras penas

 

 crianças carrinhos babás corre-corre pressa trabalho dinheiro horário ai que vida corre-corre a mãe onde estará crianças carrinhos babás e o pai por onde dinheiro trabalho dinheiro dormir comer ir à praia no domingo você me leva papai macdonalds domingo fui com a minha mãe a vida o dinheiro carrinhos babá papai viajou volta quando não sei  não disse carrinho babá onde vão ao mercado padaria criança as pernas já não cabem que bonitinha tchau vovó ao salão ao bingo à biriba trabalho horário dinheiro agenda avião a semana que vem prometo que sim prometo que não eu vou buscar deixa que eu vou você não foi já volto não volto pode ir criança babá pensão mensalidade colégio criança quatro anos as pernas premidas o pai esqueceu de buscar ela está estressada a babá estressou a criança cresce no carrinho cinco anos a pressa a natação dona cráudia a nenê está crescida não me vem com isso daqui a pouco revisão de sentença advogado juiz bancos juros investimentos crianças crescendo pernas crescendo as pernas puras crescendo moles a criança dura e já são seis anos a babá contrita as crianças nem tão católicas e agora vê-se: eram muitas (tantas) crescidas vão sozinhas às academias pernas fortes correndo esteiras correndo para os carros correndo correndo perfeitas pernas poderosas pernas potentes postura garbosa crianças saradas malhadas mamãe não está papai nunca esteve é preciso malhar sarar criar músculos tornar preciosas as pernas crescidas academia para malhar para bonitas para gostosas para manequins atrizes modelos todas crianças de carrinho a babá varizes a mãe o pai trabalhar dinheiro trabalhar dinheiro avião segunda mulher terceira mulher cartão cartório avião pernas em movimentos povoam a noite carros em movimento povoam as pernas promíscuas carros carrões cartões as moças em seus carros tantas pernas duras povoam carros correndo para todas as noites suarentas sustentam seios sarados mamãe papai minhas pernas foi o que pude salvar

 

Condição humana

visto negro e meu marido

é vivo

sou seu lençol

mãe de seu filho ausente

 

lavo seus colarinhos

não dormimos juntos

 

juntos só colocamos

sal nas feridas

 

Helena Ortiz (Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil, 1947). Poeta, contista e jornalista radicada no Río de Janeiro. Editora, gestora e criadora do jornal panorama da palavra e da Editora da palavra. Tem cinco livros de poesia: Pedaço de mim (1995), Margaridas (1997), Azul e Sem Sapatos (1997), Em Par  (2001) e Sol Sobre o Dilúvio (2005), e um de contos, O Silêncio das xícaras.

 

http://www.panoramadapalavra.com.br

 

www.integradaemarginal.blogspot.com

 

:: Postado por Ray Silveira às 23h55
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